Dona Xica

Crônica que escrevi… não está muito jornalística, mas a considero digna de publicação.

xica
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                      Igual há cinqüenta anos

 

 

Hoje é quarta-feira, dia de ir ao mercado fazer compras, repor a fruteira e encher a despensa. Dona Francisca desperta, abre os olhos, as pálpebras enrugadas pelo tempo, ergue o braço esquerdo a procura do encosto da cama, apóia-se na madeira velha comida pelos cupins, que range enquanto se levanta com dificuldade. Aos 76 anos suas costas não são mais as mesmas de cinqüenta anos atrás, quando saltava da cama às 9 horas das quartas-feiras e passava horas

penteando os longos cabelos negros e enrolando os cachos das pontas, estes herdados de seu pai italiano e aqueles de sua ascendência indígena por parte de mãe. O vestido de renda rosa e branco muito bem passado e engomado, os sapatos brancos de fivela, chamados “sapato boneca”, uma moça bonita e asseada, de origem simples, Xiquinha, como a chamava suas amigas, ia religiosamente todas as quartas ao Mercadão, não para comprar frutas, mas para ver seu noivo, Mário, que transportava queijos e vinhos do caminhão à tenda do Sr. Moraes. “Bons tempos aqueles”, lembra Xica com os olhos úmidos de nostalgia e distantes de saudades, mirando o relógio de mesa enferrujado. “Já é dez pra meio dia! Melhor me apressar!”. Abre a porta do armário que, como tudo naquela casa, range alto e agudo, pega o vestido azul e branco, com miúdos desenhos de flor e liga o ferro de passar roupas. “Pelo menos esse é novo! Alessandra me deu no Natal passado…”, recorda.

Na porta está à espera o velho carrinho de ferro, com as rodinhas cobertas de ferrugem, Xica pega uma caixa de papelão, encaixa entre as grades do carrinho de feira, destranca a porta e sai para a rua. Duas quadras depois avista o Mercado Municipal do centro da grande São Paulo. Suas paredes interminavelmente altas, sua concretude sólida, seu aroma misturado de verde, doce e azedo, as lembranças de moça, a expectativa, a vivacidade, a paixão, Mário, tudo invade a cabeça de Dona Xica como uma onda suave.

- Tarde dona Xica! – exclama seu João de cabelos brancos como os de Xica e pele amassada de velhice.

- Tarde João! – responde Xica, simpática, com as bochechas cheias coradas – Vim pegar umas laranjas, as minhas acabaram. Júlia e Marinho comeram tudo no almoço de domingo!

- Esses seus netos são uns danados! – brincou João, enquanto passava uma laranja suculenta para as mãos de Xica. – Aproveita essas que chegaram agorinha cedo e estão fresquinhas!

- Vou levar seis! E mais aqueles cachos de banana ali.

Com o carrinho carregado de frutas, Xica, já cansada, se senta no banquinho da porta alta do Mercado e observa o movimento. Quanta gente, quanta pressa, quanta cor… A mesma coisa de cinqüenta anos atrás.

 

 Por Clara Camargo

~ por Clara Camargo em Setembro 2, 2008.

Uma resposta to “Dona Xica”

  1. Olá Clara. Não sei se não está jornalística, mas está digna de puplicação de fato. Gostei em especial da parte em que tu descreves os sentimentos de nostalgia e saudade de Dona Xica. Parabéns, escreva mais!

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